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Читаем вместе – Maricotas, Татьяна Белинки

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Читаем вместе – Maricotas, Татьяна Белинки

O calor estava de rachar, minha garganta pedia água, e meus pés também. Hesitei um pouco – em São Paulo ainda não era usual uma senhora sentar-se sozinha numa mesinha de calçada. Mas a tentação foi mais forte (o bom de algumas tentações é a gente não resistir a elas, de vez em quando) e, um momento depois, lá estava eu tomando um bom refresco gelado, na calçada do então existente Paribar, lá no Bráulio Gomes, atrás da Biblioteca Mário de Andrade.

Meus receios de uma abordagem por algum lobo mau do asfalto revelaram-se excessivos. Mas em compensação não tardou que se aproximasse da minha mesa dois garotos maltrapilhos, dois anjos de cara suja, de uns sete e nove anos, respectivamente.

“Lá, vêm eles me vender agulhas ou barbatanas de colarinho”, pensei – e pensei errado, porque o que o menorzinho disse foi:

— Dona, me compra um sanduíche?

“O golpe do sanduíche”, pensei maliciosamente. “Eles pedem sanduíche, a ver se eu, para me livrar deles, dou algum dinheiro”. E, só de ruindade, respondi:

— Espere, quando o garçom vier eu compro o sanduíche para vocês.

Os dois molequinhos se entreolharam. O maior encolheu os ombros, num gesto desanimado:

— Ah… Vambora.

Eu havia acertado. Mas não; a coisa não parou aí. O menorzinho olhou bem para mim, estudou-me por um momento e, ao que parece, chegou à conclusão de que eu era pessoa séria, porque se virou para o maior:

— Não …vamos esperar pelo sanduíche.

O garçom veio, fiz o pedido, e minutos depois lá estavam os meus dois convidados mastigando gostosamente seus generosos sanduíches de queijo e presunto.

— Mortadela gostosa — disse o menor, de boca cheia.

— Mortadela não, isto é presunto – retrucou o maior, com ares de conhecimento e uma expressão de certo respeito, acho que pela nobreza do ingrediente.

Os garotos mastigavam contentes. Eu bebericava o meu refresco. De repente, pluft! O menor dos dois sumiu. Mas sumiu mesmo; saiu correndo tão ligeiro que eu nem o vi decolar,  nem vi para onde foi. Eu ia perguntar ao outro que pressa foi aquela, quando o pequeno, pluft! Reapareceu. E reapareceu com duas florzinhas vermelhas, bem miúdas, na mãozinha suja, que me estendeu com ar gaiato:

— Sabe o nome desta flor, dona?

Fiz que não, meio atarantada.

E o molequinho, metendo as duas florzinhas na minha mão:

— Maricotas!

E os dois personagens foram-se embora, muito dignos, ainda mastigando os sanduíches.

Prendi na lapela as duas marticotas e lá fiquei sentada, com aquela condecoração no peito e um pouquinho de vontade de chorar.

Mais tarde, vi que as maricotas cresciam no jardim da Biblioteca.