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Читаем вместе AAATCHIM – Tatiana Belinky

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Читаем вместе AAATCHIM – Tatiana Belinky

Com este tempo instável de São Paulo, sujeito a chuvas e trovoadas, com quatro estações no mesmo dia, a gente quase chega a ficar pasteurizada. O que talvez fosse melhor do que ficar como está meio mundo por aí: gripado, resfriado, de olhos vermelhos e nariz mais entupido que encanamento enferrujado. Fungando, tossindo, espirrando… e aumentando os lucros de farmácias e laboratórios.
Também eu estou assim hoje, e, ainda por cima, com a garganta feito uma lixa e a voz mais grave que a situação política. Mas como a minha máquina de escrever Olympia portátil não tem voz (mas faz barulho), cá estou eu tentando datilografar a minha crônica. Só que os famigerados vírus filtráveis que circulam no meu sangue parecem encher de algodão a minha cabeça dolorida, e as poucas ideias nebulosas que conseguem flutuar lá dentro giram sempre em volta do mesmo tema: resfriado…
Que assunto para uma crônica, bolas! Mas se não consigo pensar em outra coisa! E nem ao menos posso ficar respeitavelmente enferma: resfriado não se cura – parece mais fácil construir um hotel para turistas na lua -, mas tapeiam-se os sintomas. E tão bem, que a gente se vê obrigada a aguentar o tranco na vertical – isto é, nem dá para ficar na horizontal, guardando o leito, como se dizia em outros tempos.
No meu tempo de criança, por exemplo, resfriado, mesmo sem deixar de ser bem desagradável, tinha lá as suas vantagens. A gente ficava doente no duro. Ficava de cama, durante vários dias, recebia comidinhas especiais e até doces. Mamãe cantava pra gente, papai contava histórias, dizia poesias. Até o presente a gente ganhava. Resfriado era coisa séria, durava uns bons dez dias de direitos especiais e privilégios. Mas agora… Agora existem mil e um paliativos: gotas que abrem o nariz, comprimidos que tiram a dor muscular, drágeas que mascaram as manifestações da gripe, injecções estimulantes, drogas calmantes e relaxantes, sei lá o que mais. E o resultado é que a gente acaba andando por aí, de pé, levando a vida – e o resfriado – por toda parte. Nem doente, nem curada. Trabalhando. Namorando. Estudando. Passando adiante os tais vírus filtráveis. E escrevendo como está aqui.
Aaatchim!

Словарик к тексту

instável – нестабильный

pasteurizada – пастеризированный

resfriado – простуженный

lucros – прибыль. выручка

lixa – наждачка

barulho – шум

famigerados – пресловутые

sangue – кровь

assunto – тема

aguentar – терпеть

desagradável  – неприятный

vantagens  – преимущества

doces  – сладости

drágeas – леденцы

Namorando  – встречаясь с кем-то, быть в отношениях